Menu

A cor na narrativa cinematográfica

23 de abril de 2016 - Cor no Cinema
A cor na narrativa cinematográfica

Este vídeo faz uma excelente análise geral do uso da cor no cinema e como ela afeta as emoções da platéia.

 

Segue, abaixo, a transcrição traduzida para o português:

 

O que é cor?

Se alguém lhe fizer essa pergunta, como você explicaria o que é magenta? Ou como sentir turquesa.

Há uma série de coisas que você poderia dizer para definir o que é cor.

É uma reação psicológica a diferentes frequências de onda de luz visível.

É como percebemos visualmente nossa realidade.

Mas o que eu responderia?

É o meu aspecto favorito de uma narrativa visual. E é a questão que vamos responder hoje. Como a cor pode contar uma história.

“Escolas de cinema, academias ou instituições nunca nos ensinam o conhecimento da arte. Muita tecnologia, sim, o que é muito importante, naturalmente, a fim de ser capaz de executar a ideia. Mas ninguém nos explica o significado, a filosofia por trás da luz. A filosofia por trás da cor.”

Antes mesmo de sermos capazes de adicionar som aos filmes, temos sido obcecados pela cor.

O cinema sempre foi sobre a parte visual.

A idade primordial do cinema mostra o quanto estávamos dispostos a lutar para apenas capturar sua essência.

Antes da existência de filtros e câmeras, inovadores como Edison e Meliés a caçavam em seus filmes. Eles literalmente pintavam sobre a película para melhorar as suas imagens para que elas pudessem ficar ainda mais maravilhosas.

A cor foi inicialmente usada para mostrar a qualidade onírica do cinema.

O meio visual de ficção foi o auge de escapismo. E a cor foi usada para mostrar o quão distante da realidade ele era.

Não demorou muito tempo para cineastas descobrirem que a cor era um elemento essencial para contar histórias.

Parecia que uma nova maneira de colorizar filmes surgia a cada dia.

Usando tingimento, a película podia ser completamente alterada para uma determinada cor.

Famosamente, em Intolerância, D.W. Griffith utilizou usou uma série de cores para mostrar a diferença entre os vários períodos de tempo.

Cineastas tem desenvolvido esse uso da cor. Pessoas como Benjamin Christian, por exemplo, percebendo nossas reações psicológicas naturais às diferentes cores.

Ficávamos muito mais ansiosos quando a imagem era coberta de vermelho, em contraste com a sensação de serenidade quando era apenas banhada em azul.

A cor logo se tornou uma forma de simbolizar a essência interna de personagens.

Em “Ganância”, de Erich von Stroheim, seguimos um homem cuja esposa ganha na loteria. Vemos o dinheiro tingido à mão em amarelo. No final do filme, quando a possessividade do homem cresce, todo o filme é envolto pelo amarelo, simbolizando a consumo completo do homem, apenas através do uso da cor.

O cinema acaba de ganhar uma nova maneira metafórica de contar histórias.

Estes são apenas alguns exemplos de como a cor é usada para contar uma história.

Porque desde que a Technicolor desenvolveu a técnica de três películas (nota: processo em que três negativos rodavam em paralelo para capturar as três cores básicas em filmes monocromáticos), um novo universo de oportunidades se abria diante de nós.

Ficamos completamente livres para usar a cor do jeito que queríamos.

Artistas começaram a entender a disciplina da estética e do simbolismo.

Mas o como é possível que os métodos do cinema mudo tenha sobrevivido até o século 21?

“Intolerância” nos mostrou como a cor pode separar o espaço e o tempo.

Assim como “Herói” usa a direção de arte para mostrar histórias de diferentes perspectivas.

Outros filmes que usam a cor para diferenciar várias histórias, também a utilizam para definir a atmosfera de cada história individual.

Uma técnica que vem desde os tempo de “O Gabinete do Dr. Caligari” (1919) e que continua relevante na era digital.

Seja o tom frio e sem esperança ou áspero e perigoso, o uso da cor serve esse fim.

Como é que os pioneiros dessa forma de arte sabiam que essas técnicas funcionariam?

Bem, decorre das nossas facetas mais primitivas. Seres humanos sempre terão reações psicológicas a determinadas cores.

Portanto, certas cores são muitas vezes utilizados de maneiras muito particulares.

Mas isso não torna seu uso exclusivo. Por exemplo, vermelho parece ser a cor que nos causa reações mais fortes.

Mas, enquanto podemos usá-la como uma representação de ódio e crueldade, também podemos usá-la para mostrar paixão e amor.

O mesmo com o verde. Um campo verdejante nos dá esperança e demonstra fertilidade.

Azuis-verdes também mostram a força da existência mundana e sem vida.

Verde em uma pessoa nos diz quem é o monstro.

Não há diretrizes estabelecidos para dizer como você deve usar a cor. Mas entender os efeitos cognitivos dela ajuda.

Em Kill Bill, a roupa de Uma Thurman não só se torna icónica através da sua utilização de cor, mas também causa uma forte reação subconsciente ao personagem. Seria sua loucura melhor representada por um traje bege? Ou esse amarelo intenso que provoca o sentimento de perigo?

Determinadas cores invocando respostas emocionais específicas tem estado sempre presente na nossa narrativa até os dias atuais. Mas quando se trata de usá-las, a maior ferramenta para um artista não é uma licenciatura em psicologia. São as suas ideias.

E várias dessas ideias pode ser explicadas com uma ferramenta simples.

Existem três elementos-chave para qualquer cor: a matiz, a saturação e o valor.

A matiz é a cor real. Então, é vermelha, laranja, verde, e assim por diante.

A saturação é o quanto intensa a cor é. Então pode ser extremamente vibrante ou mais pálida e desbotada.

Quanto mais desaturada, mais próxima do cinza.

E, finalmente, há o valor. Se a cor tem um valor baixo, é mais escura que uma cor com um valor mais elevado.

Se você alterar qualquer destes elementos, muda o tom do filme. Altere o tom e você terá um filme diferente.

O cinema, no início, logo percebeu como evocar certas emoções. No entanto, no mundo da Technicolor, as coisas se tornaram mais complexas.

Agora temos paletas de cores em nossos projetos, que surgiram depois que descobrimos que algumas harmonias funcionam melhor que outras.

E eu acho que isso pode ser resumido em duas finalidades: equilíbrio e discordância.

Estas são apenas algumas harmonias, e eu sugiro que as pessoas pesquisem mais sobre a teoria das cores para entender como cor é utilizada da forma mais eficaz.

Utilizando estas paletas de cor corretamente, resultará numa imagem equilibrada.

Um dos os melhores cineastas na utilização de paletas de cor, hoje em dia, é Wes Anderson. Veja Moonrise Kingdom. O uso de verdes marrons e amarelos significa que as cores não fazem grande contraste uma com outra e, por isso, agrada a vista.

Ele usou um esquema de cores análogas porque é calmante e apropriado ao tom nostálgico do filme.

Outra harmonia comum que você verá é o esquema complementar.

Porque, na extremidade oposta da roda de cores, complementam um ao outro de modo que você verá frequentemente vermelho e verde, azul esverdeado e laranja, ou amarelo e roxo.

Acrescentando equilíbrio à imagem significa que nada interrompe o fluxo da cor.

Aqui estamos vendo como a cor afeta o tom do filme.

Mas isso não significa que o equilíbrio de cores não possa ser usado para criar uma atmosfera sombria.

Apocalypse Now usou um esquema equilibrado no domínio de Kurtz. Mas a névoa laranja deu uma sensação de toxicidade no ar.

Por outro lado, um filme como O Demônio das Onze Horas aparenta não ter nenhum esquema de cores. Mas usa cores triádicas, significando que todas as cores estão a uma distância igual na roda de cor.

Este equilíbrio lúdico cria a atmosfera do filme, tornando as regras de improviso do mundo ainda mais críveis.

No entanto, quando você joga algo que não se encaixa no esquema, isso cria discordância. Por vezes, isto apenas significa ter uma cor saturada que não pertence ao grupo.

Isso pode dar ao olhos do público um ponto de foco ou de repouso. Ou intencionalmente direcionar os olhos do público para algo.

Uma das coisas mais importantes a serem observados sobre a cor é que o público nota o que não se encaixa.

Daí os designers de jogos usarem cores fortes e saturadas para objetos importantes.

A introdução de uma nova cor em um regime estabelecido pode ser um método eficaz para mostrar que o clima do filme foi alterado.

Por isso, se a cor pode nos afetar em um nível tão intrínseco, pode ser usada para adicionar contexto à imagem.

Novamente voltando a cor Wes Anderson, a cor é muitas vezes o contexto para suas histórias.

Em Os Excêntricos Tenenbaums, Gene Hackman faz coisas terríveis. Mas, por causa de sua roupa rosa pálido, sabemos que não devemos levar qualquer coisa que ele faca a sério. Já que as cores o tornam bobo.

Em O Grande Hotel Budapeste, tudo você tem que fazer é olhar para quão coloridas as imagens são para saber que nada aqui tem um peso emocional muito grande.

As cores nos afetam como uma anomalia psicológico. E podemos não saber por quê nos afetam. Mas certamente nos afetam.

Sabemos apenas pelas cores dos sabres de luz quem é bom e quem é mau.

Então sabemos o a cor é um processo psicológico e usá-lo pode criar certos ambientes. E criar um esquema de cores em torno de uma cor pode enfatizar esta atmosfera.

Mas este vídeo é sobre a cor na narrativa cinematográfica.

E ela pode ser usada para mais do que apenas para definir o clima. Dito isso, qual é o propósito da cor?

Bem, eu acho que posso resumir o uso da cor a duas categorias separadas: associativa e transitória. Permita-me explicar.

Quer seja o esquema recorrente de cores primárias ou a repetição de cores específicas ao longo do filme, o uso consistente de cores em uma história serve como associações.

Isto significa é que associamos uma cor a um determinado assunto ou uma ideia.

Então vamos dizer que seu personagem está associada com à roxa. Se passamos a ver roxo, no futuro, sabemos que aquela cena, de alguma forma, está ligada ao personagem.

Precisamos Falar Sobre o Kevin é um filme repleto de temas violentos que não mostra quase nenhuma violência.

No entanto, as constantes aparições da cor vermelha agem como um lembrete para o público de que a violência é a base de toda esta história.

Neste caso, o vermelho é associado com sangue. Mas isso não significa que as associações devem necessariamente seguir os limites sociais das cores.

Por exemplo, no Poderoso Chefão, o laranja é associada à morte. Isso demonstra que a repetição de cores em um esquema tem algum tipo de em relação com uma ideia.

Se algumas cores estão recorrendo ao longo da história, tente encontrar o assunto que está relacionado a elas.

Portanto, se esse é o propósito de cores consistentes, uma mudança de cor

mostra transição.

Se uma cor tem sido associada a um personagem e essa cor muda, então isto significa uma mudança em algo.

Transições podem ser algo tão simples como a mudança de um local ou podem ser algo mais complexo como a mudança do estado de espírito de um personagem.

No Último Imperador, enquanto o personagem descobre mais sobre o mundo a seu redor, a paleta de cores muda. O mundo da tradição e inocência do personagem é associado à cor vermelha.

No entanto, conforme o personagem vai aprendendo, a cor muda para o laranja, amarelo e, finalmente, uma vez que ele passa a compreender totalmente o mundo à sua volta, para o verde.

A cores mudam, juntamente com as características do personagem.

Este sistema eficaz de transições torna-se ainda mais único quando examinamos a roda de cores, porque vermelho, laranja, amarelo e verde são cores consecutivas.

Ir do vermelho para o verde mostra que tanto o personagem quanto a roda giraram 180 graus.

Transições de cores tipicamente acontecem gradualmente ao longo dos filmes. Casa

O personagem de Malcolm X, de Spike Lee, é refletido pelas cores mudando ao longo do tempo.

No entanto, se a mudança é mais brusca como uma alteração para uma circunstância ameaçadora, e dependendo do tipo de filme, a transição pode ser instantânea.

Há uma razão por trás de cada escolha da cor em um filme.

Quando assistimos a um filme que usa cores muito específicas, como é que essas cores fazer você se sentir e como é que elas seguem os personagens?

Porque é que vida corporativa do narrador é verde sem graça? Por que Schmidt é constantemente cercado por azuis?

Quando você encontra a razão da cor, o resto do filme pode ser contado através apenas da cor.

Por exemplo, os azuis são extremamente prevalentes em Azul é a Cor Mais Quente. Literalmente cada cena tem algo azul. Quando Adele conhece Emma, seu cabelo é azul.

Então a cor representar a liberdade de Adele de se expressar, assim como o amor entre ela e Emma.

Azul é associativo e o assunto é a relação de Adele. Aqui vemos que as conotações sociais das cores são inalteráveis.

O amor é representado pela cor azul ao contrário de… Adivinhe.

À medida que progredimos através dos estágios do relacionamento, o esquema de cores reflete isso. Durante os períodos mais felizes da relação, o azul cerca Adele e é bastante saturado, mostrando o nível de intensidade de seu amor.

Nos momentos mais tristes, Adele é cercada por azuis bem mais pálidos, mostrando que o amor está desaparecendo e ela ainda é consumida por ele.

E, depois de uma tentativa de reacender seu romance falhar, o único azul que vemos é um vestido azul cercado por um mundo de cinzas.

Este é um exemplo de como a cor é usada para mostrar a relação do protagonista com outro personagem usando tanto a cor associativa quanto a cor de transição.

Um Corpo que Cai usa outro exemplo disso. No entanto, em vez de apenas uma cor, ele usa tanto vermelho quanto verde a seu favor. A paixão de Scotty é representada por vermelho e Madeline está associada com a cor verde. Scotty, na primeira vez, vê Madeleine usando um vestido verde cercada por vermelho.

A intensidade do vermelho sugere que a fantasia de Scotty é perigosa. E, ao longo do filme, é perceptível em cenas perigosas quando ele exerce a sua obsessão.

Tudo relativo a Madeline é verde, das roupas que ela veste até o carro que ela dirige.

Mais tarde, no filme, Scotty conhece Judy. Que ele não consegue não imaginar ser Madeleine. Então, conforme ele quer que Judy fique mais parecida com ela, o verde passa a reintegrar a paleta de cores. Até que, finalmente, o verde vindo do lado de fora do quarto do hotel cerca Judy de um brilho ameaçador.

O sujeito de uma associação de cor, na maioria das vezes, é um personagem. Então, como você faz essa associação?

O figurino é uma das maneiras mais comuns de fazer isso. Porque os personagens vão literalmente sempre ser vistos junto da cor que eles vestem.

Mas não é a única maneira de obter isso.

Um dos usos mais originais é em Um Sonho de Amor. Em uma cena os personagens usam roupas que o outro usou em uma cena anterior, oferecendo dicas sutis sobre seu relacionamento.

Quando você usa a cor de transição com o personagem, alterando o esquema de cores que lhe está associado, ela pode ser utilizada para mostrar uma mudança interior no personagem.

Usando esquemas de cores nas roupas foi essencial na transmissão dos posicionamentos morais dos personagens em Breaking Bad.

Um dos melhores exemplos de transição de personagem está nesta cena. Já tendo transgredido ao longo do tempo a um estado mais vil, nosso personagem principal veste vermelho, uma cor bem mais nefasta.

Pouco antes de morrer, ainda mais envolto em seus próprios males, ele remove sua camisa revelando uma ainda mais escura. Sua presença visual representa o arquétipo do personagem. Algo mais sombrio se encontra abaixo da superfície de Walt.

Eu acredito que exemplos como esses demonstram que a cor pode ser o contraponto visual entre imagem e som.

Ela pode ser utilizada para aumentar a natureza dos nossos desejos ou para ser a última girada da faca. Ela torna-se a fundação do estado emocional do filme.

Olhe para o ensaio sobre o Homem de Aço da VideoLabs e veja como as duas versões passam emoções diferentes. São as mesmas imagens, apenas desaturadas. Mais uma vez mostrando os efeitos psicológicos da cor sobre as nossas mentes.

Da próxima vez que você olhar para um esquema de cores, pense nas ramificações psicológicas daquela cor. Encontre a associação, as transições, e o filme se revelará a você mais do que as palavras conseguem.

Roger Deakins disse ser mais fácil fazer cores ficarem bonitas do que fazê-las servirem à história. Ele provavelmente está certo. Mas vamos tentar provar que ele está errado.

Tags:,

4 opiniões sobre “A cor na narrativa cinematográfica

Artur Monteiro

Muito obrigado por dividir um pouco do seu conhecimento. Excelente iniciativa!

    Paulo M. de Andrade

    Obrigado, Artur. É um prazer poder compartilhar um pouco do meu conhecimento com vocês.

Marcos Ribeiro

Bacana o texto. Me lembrei de um filme O Mistério de Oberwald( acho que é isso) de Antonioni.Vc viu? Ele faz experiências com a cor em cada plano, em cada personagem. dá uma olhada!. abraços, Marcos

    Paulo M. de Andrade

    Obrigado pela dica, Marcos. Vou procurar.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *